Se você já sentiu aquele frio na barriga antes de enviar uma mensagem carinhosa ou se pegou apagando um "textão" por medo de parecer "intensa demais", saiba que você não está sozinha. Décadas atrás, Fernando Pessoa (através de seu heterônimo Álvaro de Campos) já nos confortava com uma verdade libertadora: “Todas as cartas de amor são ridículas. Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas”.
Mas, em tempos de curtidas rápidas e amores "líquidos", por que temos tanto medo desse ridículo?
O Amor na Era do Desapego
Vivemos em uma sociedade que o sociólogo Zygmunt Bauman descreveu como "líquida". Nela, as relações parecem ter prazo de validade e o investimento afetivo é visto quase como um risco financeiro: "não vou demonstrar muito para não sair perdendo".
Nesse cenário, a demonstração de afeto tornou-se um desafio. O medo da rejeição nos faz vestir uma armadura de indiferença. No entanto, a Psicologia nos mostra que o ser humano é um ser de vínculo. Precisamos do reconhecimento e do afeto do outro para nos sentirmos seguros e validados. Quando escondemos o que sentimos para "manter o controle", acabamos criando muros em vez de pontes.
A Importância de "Ser Ridícula"
Ser "ridícula", no contexto do poema, é ter a coragem de ser autêntica. É permitir que o outro veja nossa vulnerabilidade. Na clínica e nos estudos sobre bem-estar, percebemos que a repressão constante das emoções gera ansiedade e um profundo sentimento de solidão, mesmo quando estamos acompanhadas.
Demonstrar afeto, seja por uma carta, um áudio de cinco minutos ou um abraço demorado, é uma forma de dizer: "Eu existo, você existe e o que temos é importante". É um antídoto contra a frieza dos algoritmos e a superficialidade dos encontros casuais que não aprofundam raízes.
Como cultivar o afeto no dia a dia?
Não precisamos ser poetas para expressar amor. O "educar para o afeto" passa por pequenos gestos:
Valide o que você sente: Se o sentimento é real, ele não é ridículo. É humano;
Pratique a escuta ativa: Às vezes, a maior prova de afeto é estar presente por inteiro em uma conversa;
Perca o medo da intensidade: Ser intensa é ter vitalidade. Amores mornos podem ser confortáveis, mas são os amores que "transbordam" que nos fazem crescer.
Conclusão
Que possamos resgatar a coragem de escrever nossas próprias "cartas ridículas". Que a gente não se deixe esfriar pela liquidez do mundo lá fora. Afinal, como conclui o poeta, ridículo mesmo é quem nunca teve a audácia de amar e de dizer que ama.
Cuidar da sua saúde mental também é permitir-se sentir. E você, qual foi a última "loucura" de afeto que você se permitiu viver?

