Somos uma espécie gregária: precisamos uns dos outros para nos desenvolver e atuar no mundo ao nosso redor. Parte de nosso sucesso evolutivo vem da capacidade de cooperar, trocar informações, co-criar e, enfim, da disposição em estarmos juntos.
O bebê humano é o mamífero que por mais tempo depende dos cuidados da família e das pessoas que o circundam. Seu processo de desenvolvimento depende de uma série de fatores que diferem enormemente do que ocorre com outros mamíferos na natureza, que em poucos meses ou anos já estão prontos para seguir sozinhos. Basta pensar que o bebê humano, para sobreviver, precisa por um longo período da atenção constante de seus cuidadores, pois só alcançamos determinado nível de autonomia — andar, falar, comer sozinho, cuidar da higiene pessoal etc. — após vários anos.
Constituímo-nos como uma imensa rede de laços sociais, sem a qual estaríamos fadados à extinção. Tudo o que fizemos até aqui consistiu, em grande medida, em trocar informações uns sobre os outros e sobre o ambiente ao redor, desde tempos imemoriais.
Ao longo da evolução, desenvolvemos habilidades manuais e cognitivas fundamentais para a sobrevivência. Quando éramos caçadores-coletores, era essencial comunicar ao grupo a aproximação de um predador ou usar a linguagem para construir estratégias de caça. Hoje, nossos motivos são menos urgentes, mas nossa capacidade de interação se expandiu a nível global com o advento dos computadores, dos dispositivos móveis e das redes sociais.
Faz sentido, portanto, que gostemos de rolar o feed, ver pessoas desconhecidas dançando, caindo, contando aspectos íntimos de suas vidas ou postando fotos em paisagens idílicas. Em alguma medida, é possível afirmar que sempre foi importante para nós, enquanto espécie, saber o que os outros estavam fazendo.
O curioso — senão paradoxal — é o quanto nossa capacidade de nos conectarmos tem, ao mesmo tempo, nos distanciado. Em especial com as redes sociais e o uso constante de smartphones, passamos boa parte do tempo olhando para telas, envolvidos em interações superficiais. Ativamos o celular a cada poucos minutos, como quem abre a geladeira por tédio, mesmo sabendo o que há dentro, ansiando por algo novo — uma resposta, um like.
Essa mistura de anseio por novidade e ativação de mecanismos de recompensa dopaminérgica tem efeitos tanto orgânicos quanto psicológicos. No livro A voz na sua cabeça, o psicólogo experimental Ethan Kross discute as consequências do excesso de tempo nas redes sociais, levantando questões como comparação social e redução da empatia.
Em 2015, ele e seus colegas publicaram o estudo Passive Facebook Usage Undermines Affective Well-Being (O uso passivo do Facebook prejudica o bem-estar afetivo), no qual observaram que as mídias sociais amplificam os mecanismos de comparação do cérebro. Assim, quanto mais tempo uma pessoa navega passivamente — seja no Facebook ou, hoje, no Instagram — observando a vida dos outros, pior tende a se sentir em relação a si mesma.
Em outro estudo, de 2012, intitulado Effects of Anonymity, Invisibility, and Lack of Eye-Contact on Toxic Online Disinhibition (“Efeitos do anonimato, da invisibilidade e da falta de contato visual na desinibição tóxica online”), os pesquisadores Azy Barak e Noam Lapidot-Lefler analisam como o ambiente digital favorece comportamentos agressivos ou inadequados — o que chamam de desinibição tóxica. Tais comportamentos seriam motivados por características do ambiente virtual, como o anonimato, a invisibilidade e a ausência de contato visual.
O estudo também explora a diminuição do autocontrole nas redes sociais, o que pode levar a comentários ofensivos ou extremos. No contato social presencial, podemos observar as respostas emocionais de nosso interlocutor, o que facilita a empatia. No ambiente virtual, essas pistas sociais estão ausentes.
A empatia, além de ser fundamental para a cooperação humana, também atua como um freio para comportamentos cruéis. Sua ausência abre espaço para fenômenos como o cyberbullying.
Em termos fisiológicos e psicológicos, problemas como ansiedade, maior incidência de depressão, distúrbios do sono, doenças gastrointestinais e dores de cabeça têm sido associados a esse tipo de interação digital excessiva.
É importante lembrar que as redes sociais, em si, não são boas nem ruins. O que está em jogo é o uso que fazemos delas. Como sociedade, precisamos tanto de educação para o uso consciente desses ambientes quanto de formas de regulamentação — algo coerente com o fato de que a vida em sociedade é, em grande medida, organizada por regras.
Os meios extraordinários que criamos para nos manter conectados, sem precisar cruzar céus ou mares, são apenas mais um capítulo de nossa longa história de comunicação — ainda recente e em desenvolvimento. Não precisam ser rejeitados, mas sim observados com maior cuidado.
Ao mesmo tempo, criar conexões no mundo físico, real, continua sendo condição sine qua non para experienciarmos o melhor de nós: nossos gestos, emoções e tudo aquilo que nos torna humanos.

A conexão que desconecta
Como a hiperconectividade digital pode impactar a saúde mental e as relações





