Quando falamos em luto, sob uma visão psicanalítica, não podemos nos limitar ao fator morte e sua complexa finitude que ela nos apresenta. O luto está associado a perda do objeto em que nossa energia de vida (libidinal), de grande importância, está investida, entendendo esse objeto como uma pessoa, uma pátria, um trabalho, um relacionamento ou outra perda significativa.
Diante da perda, é necessário que o indivíduo realize uma elaboração de seus afetos buscando um entendimento do luto, para, então, redirecionar a energia libidinal para outro objeto. Assim, poderá transformar todo o processo do luto em memória saudável e seguir seu caminho.
Após a consumação do trabalho necessário de elaboração e transformação desse luto que deve realmente ser vivido, o Eu fica livre da conexão afetiva com o objeto de amor que antes era parte dele e foi perdido. Trata-se de um trabalho de racionalização do afeto sem que se perca o significado que um dia o amor desenvolvido desenhou na vida da pessoa. Toda a importância do sentimento sobre o que foi perdido, passa a ser simbólica.
Seu lugar é ocupado por uma fantasia de reconhecimento do que acabou em matéria e passou a ser lembrança. Todavia, quando o interesse pelo mundo externo não reata com o querer do indivíduo e não vai sendo reduzido o investimento de energia sobre o objeto do luto, aos poucos, dá-se uma dor psíquica bordeada de um comportamento que vai além da capacidade de entender e viver o fato, então, entramos num quadro melancólico no qual a incapacidade de amar volta-se para si mesmo, num processo destrutivo e danoso para recompor-se com a vida futura.
Não nascemos e não fomos criados para entender perdas; nosso mundo contemporâneo nos alimenta de ideias que fogem da visão da demanda da realidade e mergulham num circuito de expectativa de prazer sobre o amanhã. Porém, o luto é trágico, é trauma em toda a sua concretude mental e corporal, pois é sentido na pele, na mente, no vazio absoluto e repentino, no olhar, no cheiro faltante, no hábito que não se percebia, na voz que não se valorizava enquanto estava no convívio, pois ultrapassa o tempo e o vínculo. Sofremos de fato os efeitos que o Real nos coloca, sem contornos possíveis.
Reitero aqui que essa perda pode não estar relacionada somente ao trauma da morte, mas também ao de um objeto ainda vivo. Tudo funciona como um fenômeno e é exatamente com ele que precisaremos saber lidar, tendo sempre se iniciado por um trauma originário, pois essa devastidão inesperada acontece no campo do Real privando-nos de uma experiência que diariamente era vivida, muitas vezes sem nos darmos conta do grau de importância de sua representação.
Não podemos pensar em luto e suas implicações na saúde mental sem nos referirmos a Freud, no texto Luto e Melancolia ( texto metapsicológico escrito em 1914-1915, com publicação em 1917 ), pois entendemos que a grande diferença entre os dois é em como as estruturas psíquicas de cada indivíduo respondem ao evento traumático da perda.
Quando se trata de melancolia, hoje tratada teoricamente como depressão no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM) e sua natureza comparada ao luto, que está no campo do afeto e não do transtorno, podemos perceber onde está posicionado o objeto perdido para o indivíduo. O luto se caracteriza por um rebaixamento de humor, um momento de dor e inadequação temporária, porém diferente da melancolia que estabelece um estado depressivo amplo muitas vezes sem ter reconhecimento desse objeto perdido, com situações somáticas, estados claros de profunda dor e apatia perante o mundo. Muitas vezes é impossível o reconhecimento dessa origem da dor.
Já o luto pode ser entendido como uma reação transitória, que será trabalhada, de um objeto explícito que causou o estado de dor, dentro de um quadro de afetos, sendo que pode também se tornar patológico, com idealizações crônicas infinitas.
Durante nossa vida, sofremos várias perdas seguidas de luto e por mais que ele nos conserve num estado de fixação ao sofrimento, colocando todo o nosso desvio libidinal (energia) para a questão, é preciso produzir uma extração de algo novo que tenha um amparo mais criativo para a formação de uma compreensão de um novo viver, possibilitando uma certa nostalgia na qual a saudade vai se posicionando no momento certo dessa passagem a um luto saudável, criando um local seguro onde o objeto perdido possa ser visto como lembranças, permitindo a desconexão cuidadosa sem desfazer a importância do que aquilo significa.
Contudo, segundo Freud, por ter essa dimensão inconclusa, parece que tem algo que não pode sair, podendo ficar fusionado e permanente, passando melancolicamente a ser implicado por um excesso de vazio cujo o sentido escapa. Uma das três causas de sofrimento apontadas pelo psicanalista no ser humano (além das relações humanas e do corpo, com suas decadências) é justamente o que o mundo te apresenta de imprevisível, ou seja, o trauma do real da perda batendo à sua porta e você se pergunta : o que eu faço com o que perdi?
Chama-se elaboração toda etapa do luto que irá manter algo que existe daquele objeto perdido e atravessa a relação com o inesperado e o vazio, sem tornar o sujeito doente.
O princípio do prazer, denominado pela psicanálise como o desejo inconsciente e sem freio, quer manter o objeto ativo, e o princípio da realidade te diz para se desconectar dele, criando um espaço simbólico onde o indivíduo possa montar sua fantasia e permitir que sua carga de energia se desvie e conclua no momento adequado esse luto de dor e sofrimento.
No texto Luto e Melancolia, Freud coloca o trabalho do luto como a tentativa de recompor o estado psíquico de homeostase por meio do imaginário e também pelas palavras. É preciso falar, é preciso narrar sentimentos e nomear até esgotar, criando-se simbolicamente um espaço interior e também social, pois sabemos que a força pulsional, quando drenada para um único propósito de dor, devasta e, se a energia toda sobre o objeto perdido se voltar para si mesmo nesse além entendimento, concretiza-se o luto patológico com a melancolia atuando no campo psíquico inteiramente.
Na depressão o indivíduo não consegue fazer essa janela de defesa (a transição e entrada na fantasia) e o trabalho do luto não se conclui. O melancólico não perde o objeto, ele perde a si mesmo e o mundo externo se exclui de seu olhar, suspendendo totalmente o interesse no exterior. Entende-se, assim, que quando o objeto de amor é perdido, parte do Eu é perdida junto, pois os elementos identificatórios desse objeto são incorporados e se misturam.
O sentimento de angústia profundo que se dá pela invasão do trauma (o real) na vida do indivíduo (campo simbólico) desarticula toda a construção psíquica e o mundo passa a ser impossível para quem o sente. De fato, entendemos que não basta que o objeto de amor desapareça para que consigamos nos libertar da fusão que acomete as identificações do Eu com o outro (entendendo esse outro em todos os sentidos - pátria, perda da pessoa, perda da juventude, separação etc), mas cabe necessariamente um trabalho psíquico dessa perda, renunciando-se ao objeto, desligando-se dos traços de um mosaico constituinte do ser humano no qual as partes de quem amamos ou de lugares ou objetos que amamos, ficam costuradas em nós, deixando-nos identificados como um grande corpo único feito de pedacinhos de objetos perdidos em nós.
A tristeza não pode estar fora dessa realidade da dor do luto, porém precisa ser restituída de conformação. Caso a pessoa se identifique totalmente com o objeto perdido a ponto de embarcar num imenso abismo com ele, o Eu melancólico se mostra, principalmente quando o indivíduo já apresenta sinais de uma estrutura mais depressiva e psicótica.
O luto demanda um trabalho que precisa ser realizado onde alguns mecanismos de defesa serão usados, possibilitando que nossa integridade mental não seja dilacerada.
Quando se trata de um luto pela perda de um objeto vivo, naturalmente o indivíduo inicia um processo de desvalorização do objeto de amor, desqualificando-o e atribuindo defeitos que justifiquem e o libertem emocionalmente de uma condição de amor que não deseja mais.
A idealização do amor coloca o outro na topologia da perfeição de nossos desejos e, para que o sujeito se desconecte e retire seu investimento libidinal no luto, ele defende-se expondo defeitos que antes não via. Já no luto pela morte, não existe esse recurso da desvalorização, pois o valor do objeto é real e inestimável.
Desse modo, a defesa psíquica para não adoecer é o desligamento sem ataques, depositando-o num lugar de memória, desconectando sua energia nele aos poucos e, saudosamente, manter a lembrança saudável e completa, sem adoecimento mental. No luto, o mundo fica pobre e vazio, mas se recupera. No melancólico, o vazio se instaura nele mesmo.
Quando olhamos para o luto, pensamos em simbolização. Esses eventos traumáticos são seguidos de um ritual, se assim podemos dizer, para mostrar a nós mesmos o quanto aquele objeto perdido era importante para nossa vida. Todavia, é possível um terceiro ajudar o outro a sair desse processo quando ele se intensifica?
Sim, pelo acolhimento de um profissional com um trabalho analítico que acompanhe o processo de travessia, permitindo que o sujeito entre em contato com seus fantasmas (sintomas presentes que causam sofrimento) e não, pois o luto é subjetivo, ou seja, só você sabe da sua dor, só você sabe o que sente. O luto é uma trajetória pessoal , uma percepção do fim para quem fica, uma consciência de um corpo e uma voz que se foram e a constatação de que uma engrenagem que estava funcionando se rompeu num episódio único e impactante sobre a linha da vida. Cabe ao processo mostrar que é possível viver sem aquele outro que se foi.
Mais do que uma observação, é um fato percebermos que, ao nos distanciarmos de uma pessoa amada após o trauma, seja ele qual for (traição, morte, mudança de país, abandono et c.), pode ser que passemos a fazer algo que o outro fazia, como começar a fumar do jeito que o outro fumava, começar a dançar como o outro sem perceber, pintar um quadro, desenhar, não se dando conta de que aquele comportamento foi o que ficou do outro em você.
Com isso, observa-se que esses movimentos identificatórios já eram do indivíduo, mas estavam projetados no outro que os executava e você não se permitia. Porém, após a perda, assume-se o comportamento, eternizando esse fim de forma elaborada e, muitas vezes, estética.
Luto, tristeza e dor, nada mais são do que afetos que nos remetem ao estado de desamparo. O que é matéria passa a ser invisível, e a narrativa de quem perde se esvazia de palavras, pois uma trama desconhecida se instaurou dentro de nós. Por isso, todos falam: não tenho palavras para descrever o que sinto;.
Nesse momento, dá-se a importância da significação de o processo ser vivido sem ser ignorado, mesmo tendo uma singularidade temporal própria, com cada um no seu tempo de vivência da fase, legítima e natural ao humano. Tudo o que é perdido precisa ser refeito, mesmo quando nos pega sem proteção e sem preparo para enfrentá-lo.
A perda precisa ser elaborada entre a constatação do ter e do não o ter, alternando o entendimento da presença de uma ausência e da ausência de uma presença, pois a pessoa que sofre o luto ainda convive com lugares, cômodos do objeto perdido, ouve músicas que remetem a ele, entre coisas que a ausência será experienciada inevitavelmente.
Por fim, entender totalmente a perda é da ordem do impossível quando se ama. Cada sentimento de valor insubstituível que se agrega ao objeto perdido define o grau de compreensão que o indivíduo consegue ter sobre a perda, de sua capacidade de transpassar e reconstruir afetos novos pelo deslizamento libidinal adequado e preciso.
Hoje percebemos a estrutura melancólica ou depressiva, se assim desejarmos nomeá-la, muito presente, inclusive nos adolescentes, talvez por uma excessiva falta de castração adequada ao que não é permitido num contexto de educação e formação identitária do sujeito, deixando-os à luz de uma liberdade sem regras, num movimento contemporâneo de ganhos sem perdas e sem frustrações, tornando-os muito frágeis para lidar com o trauma, com o real, com a falta.
Como será o processo de luto de uma criança que habita um universo de permissões absolutas e nunca foi colocada numa posição de vazio?
Ela está preparada para perder?
Sim, não há palavras, mas deve haver força. Estar curado não é esquecer a dor e, sim, dar sentido ao que se entende por uma falta repentina, e ter ferramentas para suportá-la aos poucos, se realinhando, se ouvindo, ficando pronto para viver essa angústia que a vida lhe apresentou, entendendo que esse momento irá passar. Esse tempo de espera não irá lhe desvincular do objeto amado e consolidado em você, porém é um tempo de investimento no vazio, de olhar para dentro e produzir um saber próprio sobre sua perda e seu caminho para um florescer mais forte.
Nos minutos que agora se foram já não somos mais nós, somos agora puros nós sem vícios nem tramas, donos, cada um, dos nossos sóis.
Referências bibliográficas:
1. FREUD, S. Luto e melancolia. In: Obras Incompletas de Sigmund Freud. Belo Horizonte: Autêntica, 2020.
2. SOUZA, Paulo Cesar de. As palavras de Freud: o vocabulário freudiano e suas versões. São Paulo: Ática, 1999.
3. BELTRÃO, Patricia. Pra ser humano - 1a. ed. - Maringá: Viseu, 2023.
