Imagine que a autoestima é como um rádio que fica tocando no fundo da mente.
Em dias bons, ele toca o “você dá conta”.
Em dias ruins, vira aquela estação do “você não presta”.
O detalhe é que quase ninguém percebe que esse rádio não toca do nada: ele toca porque você alimenta a antena com algum sinal.
E é aí que o livro de Richard Keshen acerta em cheio: ele mostra que existem sinais que deixam a autoestima refém, e sinais que deixam a autoestima livre.
A primeira armadilha é o sinal do espelho.
Quando eu só me sinto alguém se alguém me aplaude, eu não vivo, eu atuo.
Eu passo a medir meu valor pela cara do outro, e isso é uma forma elegante de escravidão. Keshen chama isso de autoestima “refletida”: eu me avalio pelo reflexo da avaliação alheia.
E se o espelho quebra (uma crítica, um silêncio, uma rejeição), eu quebro junto.
Psicoterapia, aqui, é reaprender a existir sem pedir autorização: fortalecer autonomia para que o “eu” não dependa do humor da plateia. A segunda armadilha é o sinal da comparação.
“Eu valho porque sou melhor.” Parece motivador, mas é gasolina de ansiedade. Porque, se eu só me sustento ganhando, então alguém existir acima de mim vira ameaça e nascem a inveja, o ressentimento, a amargura.
O livro faz uma distinção importante: você pode querer ser bom, excelente, competente, sem precisar transformar o mundo num pódio.
A terapia, nesse ponto, vira um treino de sair do placar e entrar no propósito: trocar “eu preciso vencer alguém” por “eu quero me desenvolver”.
A terceira armadilha é a mais silenciosa: quando eu pego emprestado valor de um grupo, de uma autoridade, de um status e, por dentro, aceito que sou “menor”.
É a autoestima derivada: eu me sinto digno por servir, por obedecer, por me apagar… porque suponho que o outro tem mais importância do que eu.
E isso não aparece só no trabalho; aparece em famílias, relacionamentos, religiões, amizades.
Keshen descreve isso como desigualdade moral: como se os interesses do outro “contassem mais”.
Terapia, aqui, é resgatar um direito básico: “eu não valho menos”, sem precisar virar arrogância.
Mas então vem a pergunta: se eu não quero depender de aplauso, nem de pódio, nem de hierarquia… eu vou basear meu valor em quê?
A resposta do livro é bonita porque é simples: em razões “inerentes”, que saem de dentro. Não “dentro” no sentido de fantasia (“sou incrível porque sim”), mas no sentido de uma dignidade que se constrói quando eu consigo olhar para a minha vida e dizer: “eu estou tentando ser coerente com aquilo que considero verdadeiro e bom”.
Keshen chama isso de autoestima razoável: uma autoestima que passa por uma auditoria interna, que aprende a calibrar o peso emocional ao tamanho real das coisas. Não é anestesia, é proporção. É sentir sem se perder. E é aqui que a psicoterapia ganha sua maior importância.
Porque a terapia, no fundo, é um laboratório de razoabilidade aplicada à vida. É o lugar onde você aprende a dar nome ao que sente, descobrir a crença escondida por trás do sentimento (“eu me sinto lixo porque fui criticado”), e então testar essa crença com honestidade.
É o lugar onde você aprende a trocar “mística” por clareza: títulos, status, opinião dos outros, tudo isso pode existir. Mas não pode ser o altar onde você sacrifica a própria dignidade.
É o lugar onde você treina um respeito mais maduro: não se colocar abaixo (“não conto por menos”), nem acima (“não conto por mais”) e, a partir disso, viver relações que não exigem servidão nem guerra.
No fim, Keshen está defendendo uma ideia quase subversiva: a autoestima mais estável não nasce de se achar especial; nasce de se tornar alguém que consegue sustentar um compromisso interno com verdade, medida e respeito.
Para quem é leigo, dá pra traduzir assim: terapia é quando você aprende a tirar sua vida do “modo reação” e colocar no “modo autoria”. E, quando isso acontece, o rádio muda de estação: em vez de “você precisa provar”, começa a tocar “você pode construir”. E se o seu valor não precisasse ser confirmado toda vez que alguém olha, elogia, aprova ou vence você?
E se a sua autoestima pudesse respirar sozinha, sem plateia, sem pódio, sem hierarquia?
Talvez a pergunta mais importante não seja “o que pensam de mim?”, mas “em que tipo de pessoa estou tentando me tornar?”.
Se você sente que vive oscilando entre se encolher e se provar, entre se adaptar demais ou competir demais, este livro e a psicoterapia podem abrir uma terceira via: a de uma autoestima mais justa, mais calma e mais humana. Siga a leitura, continue a reflexão e, quem sabe, comece a investigar com mais cuidado de onde você tem tirado o direito de se respeitar.
Referências
KESHEN, R. Reasonable self-esteem. Oxford: Clarendon Press, 1996.

Autoestima sem espelhos
Por que crescer por dentro muda tudo (e o que a psicoterapia tem a ver com isso).


