Você já se sentiu exausta de ouvir frases como "precisa ser mais confiante", "se ame mais" ou "se empodere"? Ao invés de se sentir inspirada, talvez tenha experimentado uma sensação estranha: a culpa. Culpa por não conseguir alcançar esse estado de amor próprio que parece tão fácil para todos — ou pelo menos é o que as redes sociais sugerem.
Se todos conseguem, por que eu não consigo? Será que construir autoestima é realmente tão simples quanto parece?
A verdade é que não é. E este artigo convida você a refletir sobre por que a pressão por autoestima pode, curiosamente, deixá-la mais distante de si mesma.
A armadilha dos papéis impossíveis
Para mulheres, a sociedade costuma exigir uma combinação curiosa de características: seja delicada, mas assertiva; cuide da família, mas brilhe na carreira; seja submissa, mas empoderada; mantenha a aparência impecável, mas não seja vaidosa. São demandas que se contradizem, criando um cenário onde é praticamente impossível "acertar".
Quando falhamos em um desses papéis — o que é inevitável —, a tendência é nos sentirmos inadequadas. E, para completar, ainda nos cobram: "mas você precisa se amar mesmo assim". A autoestima torna-se mais uma meta a alcançar, mais uma forma de nos sentirmos insuficientes.
De onde vem nossa ideia sobre nós mesmas?
O sociólogo Charles Horton Cooley, há mais de um século, propôs algo que ainda ressoa: nós nos vemos através dos olhos dos outros. Assim como olhamos nosso reflexo no espelho para avaliar nossa aparência, imaginamos o que outros pensam de nós e internalizamos essa percepção. Nossa autoimagem é, em grande parte, social — construída nas relações, nas mensagens que recebemos desde a infância, nos modelos que nos cercam.
Isso não significa que somos meras marionetes da opinião alheia. Significa que crescer, amadurecer e se desenvolver são processos que acontecem entre pessoas, não isoladamente. Quando alguém que importa para nós — uma amiga, um terapeuta, um parceiro — nos vê com aceitação genuína, inclusive aquelas partes que julgamos imperfeitas, isso pode nos ajudar a nos reconhecer de outra forma.
A diferença entre autoestima e autoaceitação
Aqui vale uma distinção importante, trazida pelas terapias contextuais, como a Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT): buscar autoestima como objetivo pode ser um caminho exaustivo. A autoestima está frequentemente ligada à comparação — "estou bem o suficiente em relação a outras pessoas?" — E a essa busca por validação constante.
A autoaceitação, por outro lado, propõe algo diferente: aprender a conviver com nossas imperfeições, com nossos dias de insegurança, sem que isso nos paralise. Não significa resignação, mas escolher agir segundo nossos valores — aquilo que realmente importa para nós — mesmo quando não nos sentimos confiantes.
Imagine alguém que valoriza a coragem, mas está com medo. A autoaceitação permite que ela reconheça o medo e, mesmo assim, escolha dar um passo na direção que considera importante. Não é sobre eliminar a insegurança, mas sobre não a deixar no comando.
A importância de olhares gentis
Voltando à ideia de Cooley: se nossa autoimagem é construída socialmente, torna-se fundamental nos cercarmos de pessoas que nos ofereçam um "espelho" mais gentil. Pessoas que nos vejam além do que produzimos ou do quanto agradamos. Que nos aceitem — falhas, contradições, dias difíceis e tudo.
Isso não significa dependência emocional. Significa reconhecer que somos seres relacionais. A validação não precisa ser constante, mas a presença de algumas pessoas que realmente importam com nossa experiência faz diferença no modo como nos relacionamos conosco.
Conclusão
A próxima vez que alguém disser que você precisa "se amar mais", talvez possa questionar: esse amor próprio é exigido para que eu me encaixe em padrões que nem fazem sentido? Ou é um convite genuíno ao cuidado comigo mesma?
A autoestima não é uma meta a ser conquistada com esforço individual. É, muitas vezes, um efeito colateral de viver em conexão com pessoas que nos devolvem dignidade, e de aprender a aceitar que não precisamos estar perfeitas para estarmos bem.
Buscar relacionamentos mais genuínos, onde possamos ser vistas como somos, pode ser um caminho mais acolhedor do que a pressão por se amar sozinha.




