Durante muito tempo, a psicologia se apresentou como neutra, universal e desvinculada das questões sociais. No entanto, essa suposta neutralidade frequentemente invisibiliza experiências marcadas por raça, especialmente no contexto de pessoas negras. Falar de clínica racializada é reconhecer que o sofrimento psíquico não nasce apenas do intrapsíquico, mas também das violências simbólicas, históricas e estruturais que atravessam os sujeitos.
O que é uma clínica racializada?
A clínica racializada não é uma “especialidade à parte”, nem um recorte identitário excludente. Trata-se de uma postura ética e política do fazer clínico, que reconhece o racismo como um fator estruturante da sociedade e, consequentemente, produtor de sofrimento psíquico. Nessa perspectiva, raça não é um detalhe secundário, mas um elemento que atravessa: a construção da autoestima, a relação com o corpo, os vínculos afetivos, a percepção de pertencimento, os sentimentos de inadequação, culpa e inferioridade.
Ignorar esses atravessamentos é, muitas vezes, reproduzir silêncios que adoecem.
Racismo e sofrimento psíquico
O racismo não se manifesta apenas em episódios explícitos de discriminação. Ele também aparece de forma sutil e cotidiana: nos olhares, nas ausências de representação, nas expectativas limitadas, nas exigências excessivas para “provar valor”. Essas experiências podem gerar: ansiedade constante, hipervigilância, sensação de não pertencimento, dificuldade de reconhecimento do próprio sofrimento; adoecimento emocional crônico.
Na clínica, é comum que pessoas negras cheguem nomeando seus sintomas, mas não reconhecendo o racismo como parte da origem desse sofrimento, muitas vezes porque aprenderam que falar sobre isso é “vitimismo” ou “exagero”.
O lugar do psicólogo na clínica racializada
Assumir uma clínica racializada exige do psicólogo um movimento contínuo de reflexão sobre sua própria formação, seus referenciais teóricos e seus silêncios.
É necessário perguntar:
- Que corpos foram considerados universais na psicologia?
- Que sofrimentos foram legitimados?
- Quais experiências foram historicamente ignoradas?
O trabalho clínico, nesse sentido, não é apenas escuta, mas também validação da experiência racial, acolhimento da dor e construção de sentido a partir da história singular do sujeito.
Em um contexto social ainda marcado por desigualdades raciais profundas, a clínica racializada se torna uma ferramenta de cuidado, reparação simbólica e resistência.
Ela possibilita que pessoas negras encontrem um espaço onde suas vivências não sejam minimizadas, relativizadas ou silenciadas. Mais do que falar sobre racismo, trata-se de escutar o sujeito em sua totalidade, considerando que sua subjetividade foi construída em um mundo que o atravessa constantemente.
Considerações finais
A clínica racializada não propõe respostas prontas, mas abre espaço para perguntas necessárias. Ela nos convida a repensar práticas, discursos e posições, lembrando que cuidar da saúde mental também é enfrentar as estruturas que adoecem. Falar de raça é falar de história, de corpo, de afeto e de sofrimento. E, sobretudo, é falar de cuidado.

Clínica racializada
Por que falar de raça é falar de saúde mental.





