O filme os 7 prisioneiros (2021), de Alexandre Morato, conta a história de jovens interioranos que são retirados de suas casas com a promessa de trabalhar em um bom emprego na grande metrópole.
Contudo, quando chegam no ferro velho para trabalhar se deparam com uma realidade bem diversa da que esperavam. Pois são oprimidos pelos patrões, chegando até mesmo a condições análogas à escravidão, dada a violência com que são tratados nesta empresa aparentemente legalizada.
Dito isso, salientaremos algumas situações cênicas relevantes para entendermos a dinâmica do protagonista do filme, se assim podemos dizer, junto ao seu patrão. De fato, Mateus ao chegar no ferro velho, tentou a todo custo resistir aos desmandos que ocorriam no local. Isto é, buscava o mínimo de dignidade para si e para os seus companheiros de trabalho.
Entretanto, "Seu Luca", o gerente do estabelecimento, após observar que os empregados pretendiam abandonar o emprego, os trancafiou coercitivamente em um quarto ignóbil após a tentativa de fuga dos mesmos.
Todavia, com o passar do tempo, Mateus intui que para conseguir se livrar desta situação, era preciso aceitar estas condições adversas de trabalho, ao menos por um tempo, pois só assim seria possível pagar a dívida que tinham adquirido com os donos do negócio.
Que, por sua vez, tinham dado dinheiro adiantado aos familiares dos empregados; ou seja, se utilizavam de ameaças vis caso estes não trabalhassem tranquilamente.
Ora, segundo a psicologia institucional, podemos dizer que os trabalhadores ainda estavam na dimensão processual da institucionalização (instituinte), ou seja: ´´ os sentidos, as ações ainda estão em movimento e constituição; é o caráter mais produtivo da instituição´´ (GUIRALDO. 2009, Pag. 32). Logo, neste período do filme, o grupo ainda se achava neste processo designado de instituinte.
Porém, com o passar do tempo, o grupo de empregados, em razão da barbárie que sofriam, passaram de sujeitos instituintes a sujeitos instituídos. Isto é: "O instituído é a cristalização disso tudo; é o que, na verdade, se confunde com a própria instituição" (GUIRALDO, 2009, Pag. 32).
Demarcado claramente no filme através do personagem Mateus, a partir do momento em que começou a colaborar com o gerente da organização criminosa. Expressado na cena em que auxilia o Seu Luca a organizar os laudos econômicos do ferro velho, no escritório do mesmo.
Portanto, as estruturas de poder, exemplificada nos agentes policiais do estado; que em conluio com a organização criminosa, que por sua vez era alinhada a influentes políticos, tacitamente demonstram aos Prisioneiros que a lei e o direito não são válidos nesta instituição de fachada (cena dos agentes públicos que fiscalizam o ferro velho).
Porquanto, neste momento o grupo sofre com a transversalidade da situação, e passam a compreender de maneira cristalizada que estão de fato institucionalizados (sujeitados). Sem ao menos ter para onde recorrer.
A resistência vai perdendo forças frente a conjuntura de poder que os determinam sobremaneira. Ademais, faz-se mister ressaltar, os Prisioneiros, inclusive os migrantes que chegaram em um outro momento na empresa, também de forma violenta, eram em sua maioria pessoas negras e pobres (assim como a maioria dos policiais). Portanto, é inegável que o processo colonizatório de exclusão e desumanização sofrido pelos países latino americanos foi determinante para a ocorrência de situações contemporâneas como essa tão bem retratada no filme.






