Sentir-se necessário é uma das armadilhas mais sedutoras do comportamento humano.
Em uma cultura que exalta a produtividade, fomos ensinados que o nosso valor está no que entregamos, mas o perigo real surge quando transpomos essa lógica para as relações afetivas.
No contexto de uma Clínica construída sobre interfaces, observamos que a fronteira entre o "eu" e o "outro" muitas vezes se dissolve em um ativismo emocional frenético, onde amar passa a ser sinônimo de ser indispensável.
A Utilidade como Escudo e Moeda de Troca
Muitas vezes, a busca incessante por utilidade máscara gera um medo profundo de não sermos amados pelo que somos, mas apenas pelo que fazemos.
Na clínica, percebemos que esse indivíduo "hiper-útil" está, na verdade, tentando controlar o abandono.
Se eu sou o suporte emocional, o resolvedor de problemas e o pilar da casa, teoricamente, o outro não pode me deixar.
Como aponta Zygmunt Bauman em suas reflexões sobre a modernidade líquida, as relações muitas vezes se tornam "conexões" de conveniência, onde o medo da exclusão nos empurra a tentar garantir nosso lugar através de uma eficiência funcional.
Essa confusão transforma o amor — que deveria ser um espaço de troca e vulnerabilidade — em uma transação de serviços.
Quando a utilidade vira a base do afeto, a pessoa deixa de se relacionar com o parceiro e passa a se relacionar com a demanda do outro.
Aqui, dialogamos com o conceito de Donald Winnicott sobre o "Falso Self": o indivíduo organiza- se para atender às expectativas e necessidades do ambiente, acreditando que sua sobrevivência emocional depende dessa adaptação constante, enquanto seu "Verdadeiro Self" permanece escondido e solitário.
A Fronteira Borrada: Onde eu Termino e Você Começa?
A perspectiva das interfaces nos mostra que a saúde mental reside na clareza do contato.
Quando confundimos amor com utilidade, perdemos a capacidade de distinguir nossas próprias necessidades das necessidades alheias.
O Salvador exausto: Quem precisa ser útil o tempo todo acaba por invalidar a autonomia do outro, criando uma dinâmica de dependência que sufoca o crescimento de ambos.
Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, descreve esse excesso de positividade e de "poder fazer", que leva o sujeito à auto exploração em nome de uma realização que nunca chega a ser plena.
A Falta de Presença: Curiosamente, enquanto estamos ocupados "fazendo" coisas pelo outro, deixamos de estar "presentes" com o outro.
O fazer ocupa o lugar do ser. A interface entre os dois sujeitos torna-se obstruída por tarefas, impedindo o encontro genuíno de alteridade.
Redescobrindo o Valor do "Ser Desnecessário"
O verdadeiro amadurecimento emocional dentro da clínica de interfaces acontece quando o indivíduo percebe que o amor mais genuíno ocorre no espaço da gratuidade, e não da utilidade.
Amar é um exercício de liberdade; é quando escolhemos ficar, mesmo quando não há nada prático a ser resolvido ou consertado.
Como sugere Martin Buber, a relação "Eu-Tu" exige que o outro seja visto em sua totalidade, e não como um objeto de uso ou uma função a ser preenchida.
Desfazer esse nó exige coragem para enfrentar o silêncio da inatividade e a incerteza de ser amado apenas pela própria existência. Afinal, se você só é amado enquanto é útil, você não está em uma relação, está em um emprego emocional — e sem direito a férias.
A cura, portanto, passa pela restauração da interface: permitir que o outro seja o outro, e que o amor sobreviva mesmo na nossa mais absoluta inutilidade.
Referências Bibliográficas
FIGUEIREDO, L. C. As diversas faces do cuidar: considerações sobre a clínica e as interfaces. In: Estudos de Psicanálise, n. 27, Belo Horizonte, 2004. (Reflexão central sobre a presença do analista e as fronteiras do cuidado).
BAUMAN, Z. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. (Para compreender a lógica de consumo aplicada aos afetos).
HAN, B-C. A Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015. (Sobre a compulsão pelo desempenho e utilidade na contemporaneidade).
WINNICOTT, D. W. O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. (Sobre o desenvolvimento do "ser" em oposição ao "fazer" adaptativo).
BUBER, M. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2001. (Sobre a ética do encontro e a alteridade nas relações).

A necessidade de utilidade e o equívoco do amor
Quando amar vira “ser indispensável”: a armadilha da utilidade nas relações.





