De ideal em ideal abre-se mão da vida real.
Um processo psicoterapêutico implica a queda de ideais do sujeito e da cultura. Essa queda de ideais não é um tombo que leve à depressão, à paralisia e à inibição, mas sim a uma liberdade e a uma desalienação, na medida do possível. Liberdade essa de olhar para um horizonte desejado, sem deixar de reconhecer aquilo que se é, aquilo que se deseja e o percurso da busca. Os ideais nos seduzem, prometem completude e perfeição. A vida real nos convoca a viver o possível: o que há, o que falta, o que não se encaixa na nossa fantasia de completude. Habitamos esse intervalo entre os ideais e o real.
Os ideais são imperativos de felicidade, de objeto, de desejo, de modos de ser inalcançáveis… O ideal pode servir como combustível para o desejo de ser e de ter. No entanto, pode tornar-se um carrasco diante do sujeito, reduzindo-o à condição de insuficiente perante aquilo que acredita que deve alcançar a qualquer custo. O sujeito torna-se um eterno devedor de um credor nunca satisfeito. De ideal em ideal, abre-se mão da vida real. Aquilo que é vivido pelo sujeito, suas escolhas e possibilidades, tornam-se moeda de troca para o carrasco credor da perfeição.
Um processo analítico implica a queda dos ideais do sujeito e da cultura que o atravessa; esse percurso é uma confrontação com aquele carrasco interior que nos faz sentir culpa “por não ser daquele jeito” e “por não ter conseguido tal coisa”. Cobranças essas que são fantasiosas e que esmagam a realidade da vida, trazendo sofrimento — uma verdadeira prisão em uma fantasia inatingível. A clínica se propõe a acolher a culpa neurótica por não atender ao próprio desejo, por não atingir seus ideais (de fato inatingíveis) e por ter dificuldade de viver suas pulsões. O sujeito vem a ser aquele que não cede de seu desejo, desejo este que se torna decidido… uma decisão singular, em sua diferença radical. Dessa forma, torna-se possível questionar as certezas e os engessamentos e furar esse muro, possibilitando uma vida mais interessante e mais livre, na medida do possível.
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