O mito de Narciso, tal como narrado por Ovídio, permanece como uma das metáforas mais potentes para pensar a constituição do sujeito e sua relação com a imagem.
Narciso, ao apaixonar-se pelo próprio reflexo, não reconhece tratar-se de uma imagem sem substância, condenando-se à repetição estéril do olhar sobre si mesmo.
Na leitura psicanalítica, esse mito ultrapassa a ideia vulgar de vaidade e aponta para uma problemática estrutural do sujeito: a constituição do eu a partir da imagem e o risco de aprisionamento no registro do imaginário.
Freud introduz o conceito de narcisismo para pensar o investimento libidinal no próprio eu, distinguindo o narcisismo primário — estruturante, necessário à constituição psíquica — do narcisismo secundário, marcado pelo retorno da libido ao eu em detrimento dos objetos. Lacan, por sua vez, aprofunda essa discussão ao formular o estádio do espelho, momento em que o infans se reconhece na imagem especular e constrói uma ilusão de unidade corporal e subjetiva.
Trata-se de uma identificação fundamental, porém enganosa: o eu nasce alienado na imagem do outro. O mito de Narciso antecipa essa lógica, revelando que o fascínio pela própria imagem carrega, desde a origem, um traço de alienação e desconhecimento de si. Na pós-modernidade, as telas — sobretudo o celular — funcionam como novos espelhos, tecnologicamente sofisticados e permanentemente disponíveis.
Diferente do espelho clássico, a tela não apenas reflete: ela edita, filtra, recorta e devolve ao sujeito uma imagem idealizada de si, frequentemente mediada pelo olhar do Outro social.
Redes sociais, selfies e performances digitais intensificam o imperativo de visibilidade, produzindo um sujeito convocado a existir enquanto imagem, curtida, visualizada e validada.
Nesse cenário, o narcisismo deixa de ser apenas uma dimensão psíquica para tornar-se um dispositivo social. Do ponto de vista psicanalítico, o celular pode ser compreendido como um objeto que opera no campo do gozo. Ele promete satisfação imediata, reconhecimento constante e a ilusão de controle sobre a própria imagem.
Entretanto, assim como no mito, o sujeito não encontra ali um verdadeiro encontro com o outro, mas um circuito fechado de autorreferência. A relação com a tela tende a reforçar o registro imaginário em detrimento do simbólico, enfraquecendo a mediação da palavra, da falta e do desejo.
O outro aparece reduzido a espectador ou espelho, e não como alteridade capaz de desestabilizar o eu. Essa dinâmica produz efeitos clínicos visíveis: aumento da angústia, fragilidade identitária, dependência de validação externa e dificuldade de sustentar o vazio constitutivo do sujeito.
O horror ao silêncio e à ausência de estímulos revela a recusa da falta — elemento central para a emergência do desejo. Tal como Narciso, o sujeito contemporâneo corre o risco de morrer simbolicamente à beira de sua própria imagem, fixado numa busca incessante por completude que jamais se realiza.
Contudo, a Psicanálise não propõe uma condenação moral das tecnologias, mas uma leitura crítica de seus efeitos subjetivos. O problema não reside na imagem em si, mas na recusa de atravessá-la, de reconhecê-la como semblante. A clínica aposta na possibilidade de deslocamento do sujeito do campo da imagem para o campo da palavra, permitindo que algo do desejo se inscreva para além do reflexo. Assim, o mito de Narciso permanece atual não como advertência contra o amor a si, mas como alerta sobre os perigos de confundir a imagem com o ser e o olhar com o encontro.

Por que não conseguimos largar o celular?
Uma leitura psicanalítica.





