Para que um computador funcione ou opere programas básicos, precisa-se que esses programas tenham sidos instalados previamente. O Google drive, por exemplo, que é um serviço de armazenamento na qual pode-se guardar e acessar arquivos digitalmente, ele organiza seus arquivos de acordo com o uso, deixando aquele que mais se usa, mais visível e ainda mostra que você costuma usá-lo em tal dia e em tal horário.
Ou seja, se você abre um arquivo toda sexta-feira, ele passa a semana inteira fora do campo de visão principal, da primeira fileira dos arquivos, porém, na sexta-feira estará entre os primeiros, facilitando a sua visão e otimizando o seu trabalho.
Assim, o que quero dizer com isso não é que somos robotizados, programados como um computador, longe disso. Mas sim, que como uma máquina reconhece seus dados e usabilidades e que precisaram ser programados anteriormente, e esse é o ponto, nós, seres humanos também constituímos um padrão, e com isso quero dizer um EU que não surgiu do nada, foi sendo constituído através daqueles que cuidaram de nós enquanto bebê.
Na psicanálise usamos o termo Outro (assim, com a letra O maiúscula, para indicar que é alguém grande, importante, e não um outro qualquer, igual a si próprio). Essa relação com o Outro nos marca e nos inscreve no mundo como sujeito. São nessas primeiras relações que aprendemos o básico, que não é nada básico, sobre comportamentos e afetos. É ali, que se inaugura a vida pulsional, sendo ela uma marca de energia que se inscreve no corpo, no nosso ser, e irá nos acompanhar a vida inteira.
A partir dos conhecimentos que são agregados das vivências e ao longo do desenvolvimento humano, essa pulsão se modifica nos acompanhando e também nos direcionando como a função do drive, ou seja, a partir da nossa própria “programação” previamente constituída, organiza-se sua usabilidade deixando mais acessíveis processos dos quais você costuma utilizar em determinados momentos. Cada pessoa lida com as emoções de uma maneira específica, alguns nutrem o sentimento de tristeza até esgotá-lo, outros lidam com a raiva com explosões de agressividade ou descontando na comida, mas todos, para lidar com essas emoções, recorrem a uma ferramenta que foi apreendida e que naturalmente está mais facilmente ao alcance, independente de achar o comportamento adequado ou não, bom ou ruim, há quase uma automação que leva muito tempo e trabalho para ser desfeita ou reformulada.
Compreendendo que as escolhas e os comportamentos diante de diversas situações não são tão conscientes assim, repete-se os mesmos erros talvez por não perceber o ciclo, a pulsão que levou até tal repetição, ou talvez por haver um aconchego, uma segurança naquilo já conhecido, onde o comportamento repetitivo e até então, já automatizado, seja a única forma que se sabe ou que se consegue lidar no momento.
O fato é, independente dos motivos que se racionalize de forma consciente sobre os comportamentos, existe uma pulsão, uma certa energia que nos impulsiona rumo aos nossos desejos, e nesse caso a repetição acaba sendo uma busca pela satisfação que não foi plenamente satisfeita anteriormente. Isso não quer dizer que tudo esteja perdido, que não se tenha como mudar, pelo contrário, como já foi dito anteriormente, a pulsão se modifica, se atualiza. Cada qual é responsável por sua atualização, trabalho nada fácil, mas pode ser facilitada quando se é trilhada com o auxílio do processo de análise, pois já que o processo de constituição é subjetivo, a resposta também não poderia ser única e universal, ela é individual.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRAFICAS
FREUD, Sigmund. As Pulsões e seus Destinos. Obras Incompletas de Sigmund Freud. 1a ed.; Belho Horizonte: Autentica, 2020.
FREUD, Sigmund. Além do princípio do prazer (1920).
FREUD, Sigmund. Obras completas. Tradução e notas de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Volume 14. FREUD, Sigmund. O ego e o id (1923). In: FREUD, Sigmund. Obras completas. Tradução e notas de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011. v. 16.

Por que repetimos os mesmos erros?
Assim como um computador aprende com o uso, nós também repetimos padrões emocionais construídos nas primeiras relações da vida.





