Vivemos em um tempo em que quase toda experiência humana corre o risco de ser transformada em sintoma.
Tristeza vira depressão, cansaço vira transtorno, ansiedade vira falha química, e para cada desconforto, UM RÓTULO e PARA CADA RÓTULO, UM COMPRIMIDO…
A promessa é simples: eliminar o sofrimento a qualquer custo aniquilando junto toda e qualquer possibilidade de sentir. O custo disso é bem alto! Se não sinto, não tem SENTIDO NA PRÓPRIA EXPERIÊNCIA DE VIVER…
Não se trata de negar a importância dos avanços da psiquiatria ou do uso responsável de psicofármacos. Eles são recursos fundamentais em muitos contextos. O problema começa quando o medicamento deixa de ser uma possibilidade clínica e passa a ocupar o lugar de resposta automática diante de qualquer mal-estar.
Quando isso acontece, a vida deixa de ser escutada e passa a ser silenciada.
O sofrimento nem sempre é uma patologia, mas um sinal de que algo no campo interativo organismo–ambiente perdeu fluidez, sintomas são tentativas — muitas vezes criativas — de lidar com situações que ultrapassam os recursos disponíveis naquele momento, e eduzir essas tentativas a um desequilíbrio interno é ignorar o contexto relacional, histórico e existencial em que estamos inseridos.
A patologização da vida aparece no cotidiano de maneira quase imperceptível, quando alguém diz “não posso me permitir parar”, “não tenho direito de ficar mal”, ou “isso é fraqueza”, já está operando sob a lógica de que sentir demais é errado e assim, o luto precisa ser rápido, a angústia precisa ser funcional, a dor precisa ser produtiva…
O sofrimento só é tolerado se não atrapalhar o desempenho. E aí classificamos as emoções difíceis como inimigas, ruins, problemáticas e que devem ser eliminadas, não experienciando-as como mensagens a serem compreendidas.
Muitas vezes, aquilo que recebe o nome de transtorno é, na verdade, uma emoção primária não reconhecida, como por exemplo: medo, tristeza, solidão — que, sem espaço de acolhimento, se cristaliza em padrões defensivos. O problema não é sentir demais, mas sentir sozinho.
Em uma cultura orientada pela performance, o corpo vira obstáculo e a emoção, ruído. O medicamento, então, surge como solução rápida para regular o humor, ajustar o sono, suavizar o impacto. Mas o que acontece quando a pergunta central deixa de ser “o que estou sentindo?” e passa a ser apenas “o que eu tomo para não sentir isso?”
Algo essencial se perde: a possibilidade de transformação.
Do ponto de vista ético e clínico, é preciso recolocar a vida no centro.
Nem todo sofrimento pede supressão; alguns pedem escuta, tempo, elaboração. Há dores que não são doenças, mas respostas humanas a contextos adoecidos como relações violentas, trabalhos desumanizantes, solidões prolongadas, expectativas irreais. Medicalizar essas experiências é adaptar o indivíduo a condições que, talvez, precisassem ser questionadas.
Viver implica frustração, limite, perda e incerteza e retirar esses elementos da experiência humana em nome de um ideal de bem-estar constante produz sujeitos cada vez mais dependentes de regulações externas.
A clínica, nesse cenário, pode se tornar um espaço de resistência: um lugar onde sentir não é defeito, onde o sintoma é interrogado e onde a pergunta “o que em mim está pedindo cuidado?” vale mais do que qualquer prescrição automática. Talvez o desafio contemporâneo não seja eliminar o sofrimento, mas aprender a sustentá-lo com sentido. Nem tudo que dói é patológico.
Às vezes, é apenas a vida pedindo presença.
Referências bibliográficas
● Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P. Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality.
● Granzotto, R. & Müller, M. Gestalt-terapia: fundamentos e práticas clínicas.
● Johnson, S. Emotionally Focused Therapy.
● Greenberg, L. Emotion-Focused Therapy.
● Illich, I. A expropriação da saúde.

A patologização da vida
Quando existir vira diagnóstico.





