Sabe aquela sensação de que o dia terminou, mas você ainda não parou?
De que, mesmo deitado, seu corpo parece estar pronto para uma maratona ou para resolver um problema que nem aconteceu ainda?
Muitas vezes, chamamos isso de 'produtividade' ou de 'estar ligado', mas o nome real é modo de sobrevivência.
Viver assim é como dirigir um carro com o motor sempre em rotação máxima. No começo, você se sente ágil e atento.
Mas, com o tempo, esse estado de alerta deixa de ser uma proteção e passa a ser uma prisão invisível que esgota suas energias.
A biologia por trás da nossa resposta ao estresse
Nosso corpo é equipado com um sistema de segurança brilhante chamado Sistema Nervoso Autônomo. Ele funciona em um equilíbrio entre dois estados: o de ação (simpático) e o de descanso (parassimpático).
Imagine que o sistema de ação é o acelerador: ele nos prepara para enfrentar desafios, liberando adrenalina e focando nossa atenção.
Já o sistema de descanso é o freio: ele permite que o corpo se recupere, digira bem os alimentos e regule nossas emoções.
O problema é que, no ritmo atual, muitas vezes esquecemos como usar o freio.
Quando o acelerador trava, o corpo entende que a emergência nunca acaba, e é aí que o peso invisível começa a se acumular.
A armadilha da vigilância constante
Quando estamos nesse modo de alerta, nossa percepção muda.
Passamos a notar cada detalhe: um tom de voz diferente, um e-mail que pareceu 'seco demais', ou até um batimento cardíaco mais acelerado.
É comum acharmos que isso é autoconhecimento, mas, na verdade, é uma vigilância ansiosa.
Nesse estado, o cérebro começa a usar atalhos para tentar nos proteger.
Ele passa a ver ameaças em situações neutras e projeta sempre o pior cenário para não sermos 'pegos de surpresa'.
É uma tentativa exaustiva de controlar o futuro, o que acaba nos impedindo de viver o presente.
O impacto real no seu corpo e na sua mente
Manter o motor ligado o tempo todo tem um preço.
Neuropsicologicamente, nosso cérebro prioriza as áreas de medo em vez das áreas de criatividade e reflexão. Isso não é falta de vontade; é uma configuração biológica de quem está tentando não sucumbir.
Os sinais aparecem no corpo: uma fadiga que o sono não resolve, dores musculares constantes, irritabilidade com quem amamos e uma mente que nunca silencia.
Com o tempo, a memória falha e a paciência encurta.
O corpo está pedindo uma trégua que a mente não sabe como dar.
O papel da terapia no seu processo de recuperação
A terapia não é apenas um lugar para falar sobre problemas; é um espaço seguro para ensinar seu sistema nervoso a relaxar novamente.
É onde você aprende a reconhecer os sinais de que está acelerando demais e, principalmente, a sinalizar para o seu corpo que o ambiente é seguro.
O objetivo não é eliminar o estresse ? que faz parte da vida ?, mas sim recuperar a capacidade de voltar para o descanso depois de um desafio.
Buscar ajuda é uma escolha ativa de quem decidiu que viver não precisa ser um exercício de resistência o tempo todo.
Você merece mais do que apenas sobreviver.
Referências bibliográficas
Drigas, A., & Mitsea, E. (2021). Metacognition, Stress-Relaxation Balance & Related Hormones.
Hall, K. J., Van Ooteghem, K., & McIlroy, W. E. (2023). Emotional state as a modulator of autonomic and somatic nervous system activity.
Ogden, P., Minton, K., & Pain, C. (2006). Trauma and the Body: A Sensorimotor Approach to Psychotherapy.
Wheeler, K. (2022). The Neurophysiology of Trauma and Psychotherapy.
Satsangi, A. K., & Brugnoli, M. P. (2018). Anxiety and psychosomatic symptoms in palliative care.

Sua mente nunca desliga?
O custo invisível de viver em modo de sobrevivência.





