Fala-se muito em autenticidade. Ela circula como “palavra bonita”, quase um amuleto moderno — aparece em discursos de desenvolvimento pessoal, nas vitrines das redes sociais, em slogans bem ensaiados e até em promessas terapêuticas. Mas, quanto mais se repete o convite a “ser autêntico”, mais difuso ele se torna. Algo se esvazia. As pessoas parecem tocar a palavra, mas não a experiência. Sabem pronunciá-la, mas não habitá-la. E seguem se perguntando, em silêncio: como viver de modo autêntico no cotidiano real, entre medos, desejos contidos, rotinas duras e a delicada tarefa de continuar sendo quem se é sem precisar endurecer?
Autenticidade não é espontaneidade bruta, nem ausência de conflitos, tampouco fidelidade a uma imagem idealizada de si mesmo. Na clínica, ela aparece de forma muito mais simples e, ao mesmo tempo, mais exigente e outras, assustadora… sim! Tem gente que tem medo de ser autêntico.
Mas seria a autenticidade algo diferente do que uma capacidade de habitar a própria experiência, respondendo ao mundo a partir do que se é, sente e pode, naquele momento? Na perspectiva da clínica Gestáltica, a autenticidade não é um traço de personalidade, mas um processo relacional.
Um processo que surge do encontro com o mundo através das experiências geradas a cada instante, um processo que exige presença e cuidado a cada CONTATO… Nesta perspectiva compreendemos que nada está posto, está dado, está pronto… Tudo está surgindo, mudando, transformando, RECONFIGURANDO a cada instante. É ali, na fronteira de contato entre nós e o outro, nós e o mundo, nós e nós mesmos…. Ser autêntico, portanto, não é ser igual em todos os contextos, mas conseguir variar sem se perder, sem se camuflar, sem precisar disfarçar ou mentir, é ajustar-se sem se abandonar.
Isso fica evidente em situações corriqueiras: o “sim” dito quando o corpo pede “não”; a conversa adiada indefinidamente para evitar um conflito; a permanência em um trabalho, relacionamento ou rotina que já não faz sentido, apenas porque “sair deste lugar” parece arriscado demais… parece assustador de mais… parece dificil demais… Nessas experiências, o afastamento progressivo da própria vivência emocional, daquilo que sentimos, é o que provoca a anulação, e aí, seguimos “funcionando” mas doendo… não nos reconhecendo mais naquilo que fazemos… tudo vai ficando “sem sentido”....
Não podemos nos perder NUNCA, daquilo que sentimos, uma emoção antes de ser negada, negligenciada e interrompida, ela cumpre um papel fundamental na nossa vivência, a emoção é o principal organizador da experiência humana. Perder contato com este lugar, nos faz operar a partir de respostas defensivas, endurecidas, tentativas constantes de agradar e afastamento silencioso…
A vida segue, mas a autenticidade se empobrece e muito! Se torna comum, um hábito mesmo dizer “está tudo bem” enquanto na verdade, sinto um aperto no peito… ou afirmar que algo está “resolvido” quando, na verdade, está mesmo é anestesiado. O mundo hoje favorece esse tipo de funcionamento, tudo é medido pela rapidez, desempenho, positividade constante, produtividade e exposição calculada, há pouco espaço para a dúvida, o cansaço, a ambivalência e a ambiguidade — experiências profundamente humanas e essenciais para uma vida autêntica.
Ser autêntico hoje talvez não signifique “ser quem você é”, mas permitir-se tornar quem se é, em diálogo constante com o mundo… É um exercício constante de escutar-se em suas dúvidas, em suas angústias, em suas as próprias emoções… é reconhecer limites, sustentar escolhas imperfeitas e construir sentidos que não venham prontos em embalagens ou rótulos de fora.
Autenticidade, nesse sentido, não é um ideal elevado, mas uma prática cotidiana, ela se manifesta quando alguém escolhe falar em vez de silenciar, descansar em vez de performar, sentir em vez de se explicar demais. São pequenos gestos que, somados, devolvem à vida algo essencial: a sensação de estar em casa em si mesmo.
Referências bibliográficas
Granzotto, R. & Müller, M. Gestalt-terapia: fundamentos e práticas clínicas.
Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P. Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality.
Johnson, S. Emotionally Focused Therapy.
Greenberg, L. Emotion-Focused Therapy: Coaching Clients to Work Through Their Feelings. ● Buber, M. Eu e Tu.

Autenticidade
Viver a própria forma em um mundo de moldes.





