O presente deixa de ser um lugar onde a vida acontece e se transforma apenas em um intervalo entre um passado que pesa e um futuro que promete.
Há uma sensação cada vez mais recorrente na clínica contemporânea — e também na vida cotidiana — de estar sempre atrasado em relação à própria existência, como se a vida estivesse acontecendo em um compasso diferente daquele que conseguimos acompanhar.
O corpo cumpre rotinas, horários e deslocamentos que só é possível no aqui agora, ou seja, o corpo não vive o passado e nem o futuro, APENAS O PRESENTE.
Porém, a experiência subjetiva parece sempre em outro lugar, a mente, como muitos gostam de nomear este estado, ela nunca está no aqui agora, seu lugar de fuga é sempre o passado ou o presente, até por que, para ela , o presente a torna inexistente.
Essa vivência de descompasso produz uma forma particular de angústia: não se trata apenas do excesso de tarefas, da aceleração social ou das demandas externas, mas de uma dificuldade profunda de estar onde se está. Vive-se antecipando o que ainda não veio — sob a lógica do desempenho, da expectativa e da cobrança — ou ruminando o que já passou, tentando reparar, entender ou reescrever experiências que não encontram fechamento.
Nesse movimento contínuo de deslocamento temporal, algo essencial se perde: a experiência viva do agora. A sensação persistente é a de inadequação, como se estivéssemos sempre falhando em acompanhar a própria vida.
O sujeito sente que “deveria estar melhor”, “mais à frente”, “mais resolvido”, enquanto internamente experimenta cansaço, ansiedade difusa e uma desconexão silenciosa de si mesmo.
A vida vai sendo administrada, mas pouco vivida. Quando a pessoa perde a capacidade de estar verdadeiramente presente na própria experiência, o encontro com a vida vai se tornando cada vez mais empobrecido.
Estar presente significa conseguir perceber, no momento em que acontece, o que se sente, o que se pensa, o que se deseja e do que se necessita.
Quando isso se enfraquece, a vida começa a ser vivida no automático, as escolhas deixam de ser escolhas e passam a ser reações quase previsíveis.
Em vez de sentir, a pessoa explica; em vez de escutar o que se passa dentro, tenta controlar, organizar, administrar. Aos poucos, a espontaneidade dá lugar a comportamentos repetidos, rígidos, que garantem certa segurança, mas custam a perda da vitalidade e do contato vivo com o próprio existir.
Afastar-se do momento presente nos faz organizar a própria vida em torno de exigências internas, expectativas idealizadas e cobranças que raramente encontram correspondência na experiência real. Vivemos a partir do que deveria ser, e não do que efetivamente está acontecendo. O presente deixa de ser um lugar onde a vida acontece e se transforma apenas em um intervalo entre um passado que pesa e um futuro que promete.
Sem enraizamento no agora, a existência perde consistência, como se estivesse sempre em trânsito, sem nunca realmente habitar a si mesma. Essa angústia se manifesta em cenas simples e aparentemente banais: comer sem saborear, ouvir sem escutar, descansar com culpa e mesmo nos momentos de pausa, a mente permanece em estado de alerta — planejando, comparando, calculando, otimizando. O tempo deixa de ser vivido como experiência e passa a ser tratado como recurso.
Algo a ser usado, controlado ou economizado. Viver torna-se tarefa; existir, um projeto interminável de melhoria. Quando deixamos de escutar o que sentimos no momento em que isso aparece, algo começa a se desorganizar por dentro, os sentimentos precisam ser acolhidos enquanto surgem para que possam cumprir seu papel de orientar, proteger e dar sentido às experiências.
Quando empurramos para depois, ignorados ou silenciados, eles não desaparecem — acabam voltando de forma confusa, mais intensa ou difícil de entender. Isso costuma se manifestar como um cansaço constante, uma inquietação que não passa, irritação frequente ou uma sensação de vazio difícil de explicar.
Aos poucos, vamos nos sentindo fora de si, como se estivéssemos vivendo deslocados da própria experiência. A angústia que surge nesse processo não tem um nome claro, mas pesa, desgasta e consome energia. Esse afastamento da própria experiência pode ser entendido como uma forma de estranhamento em relação à própria vida.
Passamos a viver no automático, guiados por expectativas externas, hábitos repetidos e pelo que parece ser esperado dela, em vez de se orientar pelo que realmente estamos vivendo. Vive-se como se a vida estivesse sempre em espera, aguardando um futuro em que tudo finalmente fará sentido.
O problema é que esse futuro nunca chega, porque o sentido só pode ser construído no instante em que a vida está acontecendo. Estar presente, no entanto, não significa viver em um estado idealizado de calma, atenção plena constante ou equilíbrio permanente. Presença não é técnica, nem performance espiritual. Presença é relação. É a disposição de estar em contato com o que se manifesta, inclusive — e talvez principalmente — quando isso envolve desconforto, ambivalência, medo ou dor e muitas vezes, fugir do presente é uma tentativa legítima de autoproteção diante do sofrimento.
O problema é que, ao evitar a dor, evita-se também a vitalidade, o afeto e a possibilidade de transformação. Nesse sentido, a clínica pode se tornar um espaço privilegiado de reaprendizagem da presença, um lugar onde o ritmo desacelera, onde a experiência pode ganhar palavras, corpo e sentido, onde o tempo deixa de ser urgência e passa a ser vivido. Sustentar o agora é um ato de coragem: implica abrir mão da ilusão de controle absoluto e confiar no processo da experiência. Implica tolerar a incerteza, o não saber e o que ainda não está pronto. Este talvez seja o desafio: recuperar a capacidade de estar, estar no corpo, na relação, no instante, não para produzir mais, nem para performar melhor, mas para viver com mais densidade.
A presença não elimina a angústia, mas a transforma. Quando estamos onde estamos, a vida deixa de correr contra nós e passa, novamente, a nos atravessar.
Referências bibliográficas
Perls, F., Hefferline, R., & Goodman, P. Gestalt Therapy: Excitement and Growth in the Human Personality.
Granzotto, R., & Müller, M. Gestalt-terapia: fundamentos e práticas clínicas.
Greenberg, L. Emotion-Focused Therapy.
Heidegger, M. Ser e Tempo.
Buber, M. Eu e Tu.

Como viver no presente
Quando o agora vira intervalo: como voltar a habitar a própria vida, com presença e densidade.





