O adoecimento crônico não se restringe aos limites do corpo. Ele atravessa a subjetividade, impacta vínculos, reorganiza projetos de vida e impõe ao sujeito uma convivência constante com a incerteza.
Do ponto de vista psicológico, compreender essa experiência exige ir além do diagnóstico médico e escutar o sofrimento que muitas vezes permanece invisível — inclusive para o próprio paciente.
Doenças crônicas, especialmente as de natureza autoimune, neurológica ou sistêmica, frequentemente estão associadas a alterações emocionais, cognitivas e comportamentais.
Ansiedade, depressão, irritabilidade, dificuldades de concentração, alterações de memória e mudanças na autoimagem são manifestações comuns, mas nem sempre reconhecidas como parte do processo de adoecimento.
O impacto psíquico da doença crônica
Receber um diagnóstico crônico pode produzir uma ruptura na narrativa de vida do indivíduo. Aquilo que antes era previsível passa a ser atravessado por limitações, tratamentos contínuos, recaídas e expectativas frustradas. Esse cenário pode gerar sentimento de perda, luto simbólico, medo do futuro e sensação de desamparo.
Na prática clínica, é comum observar pacientes que relatam:
sensação de não serem compreendidos;
culpabilização por não dar conta da rotina como antes;
conflitos familiares decorrentes da dependência ou da incompreensão do adoecimento;
sofrimento psíquico que é minimizado ou atribuído apenas ao emocional.
A psicologia, nesse contexto, ocupa um lugar fundamental: o de legitimar o sofrimento psíquico como parte real da experiência do adoecer, e não como fragilidade ou exagero.
Corpo e psiquismo
A clínica psicológica contemporânea reconhece que corpo e mente não funcionam de forma dissociada. Alterações fisiológicas podem impactar diretamente o funcionamento psíquico, assim como estados emocionais prolongados podem intensificar sintomas físicos.
Essa compreensão é especialmente relevante quando falamos de condições que cursam com fadiga intensa, dor crônica, alterações neurológicas ou flutuações cognitivas.
Nesses casos, a escuta clínica precisa ser cuidadosa, livre de julgamentos e atenta às singularidades de cada sujeito.
Mais do que buscar eliminar sintomas, o trabalho psicológico propõe:
favorecer a elaboração emocional do adoecimento;
ajudar o paciente a construir novos sentidos para sua experiência;
fortalecer recursos psíquicos para lidar com limites reais;
promover autonomia possível, sem negar a dependência quando ela existe.
A prática profissional e o cuidado ético
Para o psicólogo, atender pessoas em situação de adoecimento crônico exige sensibilidade clínica, postura ética e constante reflexão sobre a própria prática. É necessário reconhecer os limites da atuação psicológica, trabalhar em diálogo com outros profissionais da saúde.
A escuta deve acolher tanto a dor física quanto a dor psíquica, sem hierarquizá-las.
Além disso, é fundamental respeitar o tempo do paciente, suas resistências, seus silêncios e sua forma singular de enfrentar o adoecer.
Do ponto de vista Psicoeducativo, orientar pacientes e familiares sobre os impactos emocionais da doença pode reduzir estigmas, melhorar a adesão ao tratamento e favorecer relações mais empáticas.
Cuidar da saúde mental em contextos de adoecimento crônico é reconhecer que o sofrimento não se mede apenas por exames ou laudos. Ele se expressa na fala, no corpo, no silêncio e nas tentativas muitas vezes solitárias de continuar vivendo apesar das limitações.
A psicologia, ao oferecer um espaço de escuta e elaboração, contribui para que o sujeito não seja reduzido à sua doença, mas possa se reconhecer para além dela, resgatando sua história, seus afetos e sua singularidade.
Referrências






