Não temos como competir com o tempo, não temos o controle sobre a transição das fases da vida, não temos como atrasar o relógio biológico. A vida simplesmente segue seu curso. O processo de se tornar uma pessoa idosa é mais uma fase da vida, e não deveria nos causar tanta surpresa.
Passamos pela infância, adolescência, jovem adulto, adulto e, enfim, entramos nessa nova fase: se tornar uma pessoa idosa. O medo da perda da autonomia, da autoestima, da independência, tornar-se vulnerável e até mesmo invisível, faz com que muitas vezes as pessoas se sintam reféns dos modelos estabelecidos culturalmente de forma resignada.
Como estamos nos preparando para esse momento?
Desejamos manter nossa independência e autonomia?
Desejamos preservar nossa capacidade motora, cognitiva e funcional?
Quais cuidados estamos dispensando a nós mesmas nesse momento?
Estamos buscando o autoconhecimento para uma conversa reflexiva?
Neste processo de se tornar uma pessoa idosa é preciso ter a consciência de que, no passado, naquele momento, o que foi possível fazer foi feito, agora é olhar para frente com sentimento de dever cumprido e viver as possibilidades e sonhos que ainda estão aguardando pelo despertar.
Cuidar e ser cuidado faz parte da vida de todas as pessoas. Em todas as fases da vida precisamos uns dos outros em maior ou menor escala, mas se quando estamos nos tornando uma pessoa idosa pudermos usar os recursos que temos a nosso favor, provavelmente necessitaremos de menos cuidados, mantendo nossa autonomia, independência e saúde emocional.
O processo biológico é inevitável, é o desgaste natural dos órgãos do corpo, mas as funções cognitivas, motoras e emocionais podem e devem ser estimuladas cada vez mais a fim de proporcionar uma qualidade de vida com boas reservas, minimizando eventuais declínios e preservando a capacidade da plasticidade cerebral, ou seja, a capacidade adaptativa em reorganizar novas conexões e novos aprendizados. O convívio social com grupos que compartilham essa mesma fase da vida ou mesmo as trocas intergeracionais que propiciem conversas sadias, compartilhar lembranças agradáveis, criar laços, redes de apoio, quer seja familiar quer seja com novas amizades, proporcionam essas novas conexões.
Envelhecer traz desafios, sim, mas traz liberdade também. Todas as fases anteriores trouxeram desafios que foram ultrapassados, ressignificados ou mesmo serviram de experiências que fazem parte da história de vida de cada um, e esses desafios nos trouxeram até aqui.
A liberdade se encontra na oportunidade de olhar para si com carinho, com respeito e compaixão, eliminando críticas a julgamentos ao que já passou, ser gentil consigo mesma como se estivesse acolhendo a outra pessoa que precisasse de ajuda.
O preço psíquico/emocional que talvez tenhamos que pagar mais à frente pela negação da realidade da vida com resiliência, ou seja, transformando desafios em aprendizado, em combustível para descobrir novas formas de adaptabilidade, pode levar a um caminho para a ansiedade, a tristeza e a depressão, tendo por consequência o auto recolhimento do convívio social e o isolamento.
As nossas escolhas de autocuidado não impactam somente a nós. Preparar-se para esse momento de se tornar uma pessoa idosa afeta positiva ou negativamente àqueles que estão no nosso convívio, sejam familiares ou mesmo vizinhos. Quando temos autonomia, que diz respeito a tomar decisões assertivas e coerentes sobre a própria vida, o ambiente se nutre da saúde mental e emocional de todos, gerando afetividade e acolhimento genuínos. Quando falamos em “independência” e “autonomia”, nos referimos, no primeiro caso, à capacidade de executar as tarefas diárias, manter-se funcional, como tomar um banho, trocar-se, preparar o próprio alimento etc.
Quando falamos de “autonomia”, falamos da capacidade de tomar decisões por si mesmo, fazer escolhas com discernimento e argumentação coerentes. Para que se possa cultivar essas capacidades, é preciso desenvolver prevenções básicas, tornando-se uma rotina para vida: a) Autocuidado: estar atenta (o) aos sinais do corpo físico e mental (dores, desconfortos, angústias, tristeza, desmotivação etc.); b) Autorresponsabilidade: buscar ajuda médica e/ou psicológica evitando que a situação se agrave; c) Check-up regulares: o corpo biológico naturalmente precisa de manutenção a fim de prevenir a instalação ou avanço de doenças comuns nessa fase da vida.
A reserva funcional e o autocuidado é que irão propiciar um ambiente mais harmonioso e agradável para se viver melhor, ao que chamamos de “envelhecimento saudável com qualidade de vida”, ou seja, é um processo contínuo de otimização das capacidades físicas, mentais e funcionais. No que refere às conexões saudáveis, essas conexões precisam começar por nós mesmas, aceitando o que fomos, o que nos tornamos e o que pretendemos construir para daqui em diante, e o autoconhecimento nos proporciona esse reencontro.
É preciso ter maturidade para se despedir das fases da vida. Já fomos bebês, totalmente dependentes dos nossos pais/cuidadores; fomos crianças em transição para a adolescência tão cheia de desafios; transitamos para a vida adulta, com tantas expectativas, inseguranças, conquistas e responsabilidades, e agora estamos entrando nessa nova fase.
Cabe a cada um olhar com carinho, respeito e admiração por tudo o que foi vivido, pois toda essas experiências, toda essa trajetória serviu de mola propulsora para que chegássemos até aqui. Hoje não existem mais distâncias, a tecnologia nos permite “estar presente sem precisar estar junto”, em casos de situações limitadoras. Podemos adquirir conhecimentos, novas habilidades, trocar essas experiências em grupos online, não se isolando do mundo.
Por fim, a quem iremos culpar nesse processo de se tornar uma pessoa idosa se estamos no mundo, nesse processo de existir e de ser?
Se a todo tempo estamos fazendo escolhas?
Sempre haverá tempo de fazer novas escolhas, de começar a cuidar da nossa casa biológica e mental, de olhar essa fase da vida com outro olhar, entendendo que esse momento diz muito sobre o que construímos e o que ainda podemos construir.
Referência: (Workshop “Convite para o Deserto: Os Sete Pilares para Envelhecer Bem” – Dias 02, 04 e 06/06/2025 - Dra. Ana Cláudia Quintana Arantes – médica paliativista) Roseni dos Santos de Oliveira Psicóloga - CRP 80814

Sobre o processo de se tornar uma pessoa idosa
Autocuidado, autonomia e saúde emocional ao longo da vida.





